Pedro tem sete anos. Nasceu prematuro de 32 semanas, cujas primeiras contrações foram sentidas numa audiência criminal. Desde bebê conhece a rotina da mamãe, até porque foi várias vezes amamentado nos corredores do fórum. É meu grande incentivador, a verdadeira razão de todo o esforço, mas confesso que também é meu grande algoz. E explico.
Pedro é um menino compreensivo diante da necessidade da mãe em estudar, mas como todo menino, Pedro quer a efetiva companhia da mãe. Quer mostrar a última jogada no video-game, quer as palmas da mãe ao fazer gol, a opinião sobre o acorde novo no violão, quer desabafar sobre o amigo chato da escola. Há a visita ao médico, o remédio, a supervisão de orelhas devidamente limpas no banho, a lição de casa feita. O feijão que só a mãe sabe fazer, o pudim de leite com furinhos, o cafuné antes de dormir, o beijo que só a mãe dá. Tarefas impossíveis de serem delegadas, ainda mais para ele, que não tem a companhia do pai diariamente.
É preciso muito planejamento e conversa, muito carinho para explicar que aquele abajur ligado de madrugada tem uma razão de ser - é a mamãe estudando. Que na hora do cinema, ele terá a companhia dos primos, mas a mãe ficará ao banco no lado de fora, lendo o Código Penal enquanto o bandido do filme segue preso pelo herói. Que os livros da mamãe são pesados e não têm figuras, mas ela precisa lê-los e relê-los, e nessas leituras, não sobra muito tempo para as brincadeiras. Apesar de ser um filho obediente e compreensivo, às vezes ele reinvidica seu espaço, e a negociação fica difícil. Ele ouve muitos "nãos" - e os ouvirá ainda mais quando eu tomar posse no cargo, pois filho de juiz também precisa ter um comportamento condizente com o cargo da mãe. Seus atos também serão alvo de fiscalização. E a vida já disse muitos "nãos" para ele. Já chorei muitas vezes sozinha, mergulhada em saudade e culpa. E toda noite, antes de dormir, avalio se fui uma boa mãe para ele, se estou fazendo o certo.
Mas crianças são realmente seres superiores. Todas as lombares dos meus livros têm a marca "mamãe", naquela letrinha infantil tão bonita. Guardo vários desenhos feitos por ele, onde um menino dá às mãos a uma mamãe sorridente, na frente de uma casa com flores e debaixo de um céu com nuvens e um sol colorido. E quando indagado sobre a profissão da mãe, ele dispara: "minha mãe é juíza". Eu ainda não sou, filho. Mas é bom saber que, para você, eu sempre serei. É bom ter alguém que acredita piamente nisso. É muito bom.
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