Em 1988, eu tinha 1,40m, menos de trinta e sete quilos, um talento indiscutível para redação e a timidez dos que se sentem mais confortáveis na biblioteca do que na quadra de esportes (embora jogasse handebol com maestria). Tinha facilidade com idiomas, uma memória fotográfica para datas e dados, além de uma mortal inabilidade para matemática. Meu universo não se limitava a Bon Jovi, New Kids on The Block e outras coisas que atraiam as garotas da minha idade: eu queria saber qual a estratégia do Ayrton Senna, porque mataram o Chico Mendes, quem era esse tal de Saddam Hussein, como funcionava esse tal de doping. Eu não queria saber apenas o que havia acontecido, mas também como, aonde, por que. Eu tinha sede de saber. E nessa curiosidade que me levava a livros e revistas, foi numa revista feminina que descobri.
Era a história da Dra. Luiza Galvão, a primeira desembargadaora do Tribunal de Justiça Bandeirante. Era um depoimento realista, que não falva apenas das glórias e vantagens do cargo. Dizia das dificuldades para a aprovação no concurso, da absurda carga de trabalho, das tantas comarcas que trabalhara, dos tantos anos de trabalho sério. E por fim, a sentença: "sou uma mulher muito feliz, porque faço o que gosto". Foi aí que também sentenciei. Eu também quis essa dificuldade, essa alegria, para mim. Não contei para ninguém, porque sonho de menina é coisa boba para os adultos. Mas escrevi no caderno, naquela tolice bonita que se chama esperança. Tal como faço hoje.
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